quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Orlando foi homem até aos trinta anos de idade

Com uma modelar e inigualável modernidade, Virgínia Woolf, em Orlando, redimensiona o conceito de biografia e reflecte sobre a poesia, a vida, os insondáveis domínios do inconsciente, o tempo, a fragmentação do “eu”, o curso da história do seu país, os avanços tecnológicos, a sociedade londrina e fá-lo com uma linguagem poética, perspicaz, irrepreensível e um humor fulgurante.
Ao longo do livro, Virginia Woolf ludibria o leitor, estabelecendo com ele uma grande cumplicidade e uma espécie de pacto de verdade, de rigor, recorrendo a citações, a referências históricas, mas o mundo para onde o transporta é o do devaneio, sem que isso lhe roube a acutilância e o olhar incisivo sobre tudo o que escreve – passado ou presente.
Orlando passeia-se numa sorte de imortalidade, sem que a velhice, a avareza, a rudeza a fustiguem. De uma beleza sem fim, primeiro homem, depois mulher, ele/ela dá corpo a uma androginia sedutora, incólume e fantástica, num universo mágico que perpassa séculos, supera a razão e impõe um mundo outro, o da interioridade humana.
Um livro inquietante que vale a pena (re)descobrir.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

muda não sejas muda

Bla ble bli… imunda a mudez.
Calar é uma espécie de imundície que muitas vezes se entranha em mim. Nessas alturas há um certo nojo, uma auto-repulsa que não poderia ser de outro modo.
Se há coisas que incomodam, irritam, causam comichões plurívocas, onde está a voz? Esse cutelo friíssimo, agudo, veemente e voraz? Não posso conformar-me com esta indulgência que tantas vezes parte de mim. O ser-se politicamente correcto já não está na moda, sobretudo quando os políticos são todos incorrectos connosco. E incluo entre os políticos os que me rodeiam, pois estes têm tantas vezes traços comuns aos daqueles, no que toca, essencialmente, à arte de iludir brilhantemente.
Viver é uma aprendizagem ad aeternum e a voz deve soltar-se sempre que alguma coisa se comece a desenhar em nós, à nossa volta ou no mundo.
Bla ble bli… notável a lucidez.
Fala.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

pode um desejo imenso

Tenho pássaros na cabeça. Hoje. Ontem também os tinha, mas pela antítese da razão de hoje. Chilreiam, batem asas, dão bicadas – umas mais afáveis que outras -, deixam pegadas, largam penas, fazem ninho. Tudo isto poderia fazer-me subir à cabeça, com ou sem escada, e enxotar a bicharada, mas não me apetece fazê-lo. Há algo neste chinfrim que me preenche, que me regozija, que me faz estalar de alegria. É bom ter pássaros na cabeça. Eu já tinha pássaros no coração e sabia que era bom, mas agora toda eu sou casa de ave e isso faz-me sentir exclusiva, de asas soltas e cheia de melodias…
P.S. por motivos alheios à minha vontade, este texto é publicado com alguns dias de atraso: hoje já não sinto pássaros na cabeça… isso foi no dia 12 de Setembro…

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

muito riço pouco direitinho

José Riço Direitinho é um nome que, por si só, se impõe em qualquer panorama. Não sei qual dos dois prefiro, se este se Possidónio Cachapa. Quem tem nomes assim tem já meio caminho andado para ser um grande homem. Se assim não é, podem, alguns, decerto, pensá-lo. Vem este prolegómeno a propósito da minha última leitura – a casa do fim -, um livro pequeno, do qual fazem parte dez contos de Riço Direitinho povoados de estranhos seres que se movimentam num universo rural de tisanas, magia, desconhecido e morte. Todos estes ingredientes enchem o pequeno, mas denso, caldeirão fantástico, que nos dá a provar histórias de gentes simples e complexas, na sua sabedoria da terra, cheia de mistérios e medos a não desrespeitar. Essencialmente, prova-se a morte, servida dos mais inusitados modos e sempre com uma guarnição de comer e morrer por mais.
Garçon, saia o breviário das más inclinações, por favor.

sábado, 8 de setembro de 2007

um modo de nascer

Um modo de nascer é este, como poderia ser um qualquer outro. Sem pompa, sem hora marcada, simplesmente porque tudo o que a vida nos traz vem, em grande medida, sem aviso. Não tenho um uno modo de viver - a multiplicidade dos dias e dos momentos criam o meu modo de viver - ora interessante, ora entediante, ora dionisíaco, ora apolíneo...
Sou assim, um misto de ser que sabe e não sabe perceber como se vive. Ainda não descobri qual é a minha missão na Terra. Sou "uma pequenina luz bruxuleante" que quer reverberar, que vê "ao longe os barcos de flores" e sabe quem lá segue. Talvez se tivesse nascido perto do mar hoje tivesse outro modo de viver. Vivi, nos olhos dos meus avós maternos, os molhos de erva, o estrume, os bois e os cartilhos de leite, vivi a carreta, o carro de bois, a vindima e a apanha das batatas. Malhei milho-rei na eira e brinquei numa meda de palha como uma rainha, enfeitei árvores de Natal em pleno estio e vi roupa tesa a corar junto à poça nas manhãs geladas de Inverno.
O meu modo de viver hoje é este - encontrar-me comigo de vez em quando e perguntar-me quem sou nesse momento.
Hoje é um belo dia para se nascer. Na cidade.